É importante pensar em como agir com relação às informações trabalhadas a partir da seleção, da edição, da recombinação, da manipulação, da publicação e da eficácia do conteúdo virtual, multiplicando-se os métodos de pesquisa e as técnicas de representação. Trata-se de construção polifônica digital que utiliza o computador, com todos os recursos tecnológicos possíveis em conjunto, como instrumento para se chegar ao objetivo do projeto.
De acordo com essa dinâmica, faz-se necessária uma nova perspectiva para a produção digital que traz, na análise da estrutura de conteúdo e na interface das mídias digitais, o ponto de convergência das diferentes técnicas de desenvolvimento e que seja baseada em comunicação, visualidade, sonoridade, gestualidade, seleção, combinação e possibilidades de assimilação de interferências. Essa análise inclui a identificação objetiva e sistemática de algumas características específicas da mensagem hipermidiática, presentes no discurso interativo.
A compreensão das relações do pensamento digital advém da pré-disposição em acompanhar, e aceitar, as tendências de uma nova cultura e de procurar orientação em meio a evolução em curso, sem endereço fixo, pois transitório, moradora do ciberespaço, desterritorializado. Não estar presente não impede a existência do virtual. Presente neste modelo de pensamento existe a busca por algo novo a cada acesso a um ambiente, seja ele físico, real, atual, digital, virtual. É a renovação constante, pertinente a qualquer linguagem, incluindo a de hipermídia.
Dziga Vertov já propunha o cinema no início do século XX como uma nova maneira de perceber o mundo, através da câmera de filmar, explorada em toda a sua potencialidade na montagem dos filmes (VERTOV, 1984). Quase cem anos depois, esse mesmo tipo de montagem é utilizado como referência para a identificação de uma sintaxe da linguagem digital e do processo metodológico para a composição de uma hipermídia, ou seja, como as expressões dessa linguagem podem ser aplicadas em conjunto para formar peças de comunicação.
A proposta de Vertov deve ser atualizada, os conceitos de transformação, de rompimento com as convenções vigentes e de construção do conhecimento baseado em novas relações de significado do conteúdo com a tecnologia estão totalmente inseridos na perspectiva digital, de composição híbrida.
A ruptura com padrões manifesta-se no processo de desconstrução de projetos digitais, não apresenta um ponto de referência privilegiado que dê sentido ao conjunto, existem oportunidades não-lineares ilimitadas para novas combinações, percursos ou significados. Sobre a complexidade da hipermídia, Lúcia Leão (1999, p. 56) aborda a não linearidade como questão essencial:
Quando se trata de equações não-lineares, a complexidade aumenta bastante e o número de variáveis tende ao infinito. O pensamento não-linear compreende as questões dentro do conceito de sistemas, isto é, dentro de relações de troca e mútua determinação.
Para ampliar a discussão sobre a complexidade da hipermídia, entendemos que a produção digital é fruto do processo de montagem e requer a renovação da linguagem científica, que deveria incorporar o som, a imagem e outros elementos multimidiáticos para que eles sejam reconhecidos como estrutura de pensamento, “temos a abertura de possibilidades de uma metodologia hipermidiática de pesquisa científica, ainda totalmente inexplorada pelas regras institucionais que regulam a produção do conhecimento científico.” (BAIRON, 2005, p.20).
O componente tecnológico presente na comunicação iniciou o processo de socialização da informação, conseqüentemente, faz-se necessário o repensar do discurso audiovisual envolvido na rotina de aprendizagem e inserido no processo de pesquisa na sociedade do conhecimento, incorporado à vida cotidiana.
O ato de compor uma obra de hipermídia, aliado à metodologia de projeto, possui características polifônicas, pois, de acordo com Canevacci (1996, p.42), “a polifonia relaciona-se ao mesmo tempo com o objeto de pesquisa e o método”, e nos remete a um processo de organização das etapas de criação e de montagem, permite bifurcações, prevê possibilidades, recursos e a participação imprevista do usuário. Proporcionada pela tecnologia, a composição de uma peça digital agrega conceitos de percepção, de tratamento de imagem, de manipulação, de edição e de mixagem do material selecionado, e traduz a narrativa não-linear para uma base de informações com conteúdos interpretativos de representações textuais, imagéticas e/ ou multimídias.
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